sábado, 24 de outubro de 2015

A boneca e a menina

A boneca e a menina
Parece título de livro para crianças, mas essa história é exclusiva da CRESCER. Acompanhamos uma boneca desde quando ela foi criada até seu destino final: o abraço apertado de Mel, 2 anos
CRISTIANE ROGERIO E HELOIZA CAMARGO. FOTOS RODRIGO SCHMIDT
 Rodrigo Schmidt
Poderíamos começar esta reportagem listando para você uma infinidade de números da produção de bonecas no Brasil. Dividiríamos em diversas categorias, materiais, tamanhos... Mas a proposta foi outra. Decidimos acompanhar apenas uma. Sim, uma de milhares de bonecas de pano vendidas no Brasil e que, até o final destas páginas, ganhou cor, textura, enchimento e até um nome.
Na verdade, não há um número exato de vendas de bonecas no Brasil. Os cerca de 200 mil artesãos estimados que trabalham no país não têm sua produção computada por aqui. Mas sabemos, por exemplo, que 35% do faturamento da indústria brasileira de brinquedos corresponde a bonecos e bonecas, segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedo (Abrinq), correspondendo a 25% do faturamento total. Assim, não é difícil imaginar um número grande, certo? Ou você, por acaso, já viu uma infância sem bonecas, ou, pelo menos, o forte desejo de tê-las?
A nossa surgiu do talento da artesã Andreia Lourenço Perego, 39 anos, de Santo André (SP). Há 20 ela usa a sua profissão para levar alegria a muitas crianças. “Uma das minhas maiores satisfações é saber que, com o meu trabalho, eu levo felicidade, um sorriso para alguém”, diz. Seu ateliê aos olhos de qualquer criança poderia parecer um castelo onde a magia faz linhas e agulhas dançarem juntas até o nascimento de mais uma boneca. Ele fica nos fundos da casa de Andréia, que dedica, em média, seis horas por dia ao trabalho – o que permite que ela concilie outros sonhos realizados, como os cuidados com a casa e os filhos Aron, 10, e Camile, 14. Separados em caixinhas empilhadas, há um universo colorido que enche os olhos: são fitas, tecidos, linhas de cabelo, botões, florzinhas, pedrarias, laços. Em outra parte, a máquina de costura e a longa bancada dão pinta do que acontece por ali, mas quem entra pela primeira vez não consegue ter completa noção do que exatamente vai surgir.
Esqueça a ideia de fábrica. No ateliê de Andréia tudo é muito personalizado. “Eu até tento padronizar, mas os traços dos olhos, da boca, por exemplo, quase nunca são os mesmos”, conta. Desde criança, ela gostava de costurar roupas para suas próprias bonecas e transformar a brincadeira em profissão não foi difícil. Com o apoio do marido, o consultor de informática Marcelo, há 15 anos passou a confeccionar sua paixão e em pouco tempo havia conquistado uma clientela fiel. Seu segredo, diz, está no cuidado com os detalhes. E avisa que trabalhar com uma peça tão ligada à ideia de infância aflora ainda mais a criatividade. “Uma boneca de pano oferece tantas possibilidades a uma criança. Ela pode apertar, dormir abraçadinha, arrastar no chão, dobrar… Por ser molinha, a boneca se adapta ao que a criança quiser.”
 Rodrigo Schmidt
A loja Fábrica de Ideias recebe caixas cheias de bonecas conforme a demanda. Ao lado, Andréia leva sua arte para seu Gustavo, que põe Gabi (à venda por R$ 42) e suas amigas em exposição
Como ela nasceu
A história dessa boneca começou no dia 2 de outubro. Basicamente, o processo de feitura de uma boneca de pano segue quatro passos: inspiração e desenho; escolha dos materiais; molde, costura e enchimento; e pintura. “É como um poema, você nem sabe direito de onde vem, mas se toca o meu coração de alguma forma, eu sei que posso prosseguir com o projeto.” Esse modelo ela chama de Gabi.
As primeiras partes que ganham vida são as pernas, os braços e o tronco da boneca. Depois vem a cabeça, com o enchimento e a colocação do cabelo, e então a montagem. No rosto ela ganha blush, gloss nos lábios fininhos e contorno dos olhos, do nariz e da boca feitos com pincel e tinta. A última parte é dobrar a Gabi. Isso, essa boneca tem pernas tão compridas e braços tão molinhos que a gente consegue dobrá-la de um jeito em que ela fica abraçada com as próprias pernas. Sabe quando a criança abraça os joelhos? E ainda tem um toque final: a borrifada de um perfume bem leve, infantil, antialérgico, antes de pentear os cabelos.
Você sabia?
Em 5000 a.C., no Egito, as bonecas deixaram de ter função ritualística e passaram a ser usadas como brinquedo. A primeira fábrica surgiu na Alemanha, em 1413
Fonte: site Guia dos Curiosos

 Rodrigo Schmidt
No ateliê, a artesã Andréia guarda separado os acessórios que enfeitam a boneca, os tecidos que dão vida a ela e todos os materiais usados. A partir do molde, começa a costurar o corpo, depois vem o enchimento e, então, a finalização, quando é feito o rostinho que vai conquistar as crianças
Em busca de uma dona
Assim como Gabi, Andréia faz cerca de 100 bonecas todos os meses e elas, claro, querem uma dona especial. Quando estão prontinhas, todas ficam juntas em uma caixa e seguem para as lojas onde a artesã vende seu trabalho. Nossa Gabi foi para a Fábrica - Ideias Para Crianças, tradicional loja de brinquedos artesanais do bairro da Vila Madalena, em São Paulo. Ela chegou por lá no dia 8 de outubro, crente que o Dia das Crianças seria o motivo para que ela ganhasse um novo lar. Fornecedora há mais de três anos para a loja, Andréia e sua mágica caixa foi recebida com abraços pelo consultor Costábile De Biazi, que há 36 anos trabalha no ramo. Ele conferiu o material e já carregou tudo para o seu primeiro destino: a parte da frente da loja, em uma prateleira onde se encontram todos os modelos de Andréia. Seu Gustavo, como ele é mais conhecido, garante que às vezes o apego a um brinquedo é tão grande que ele chega a se despedir quando a venda acontece.
Gabi ficou ali sentadinha, no mesmo lugar, por quase um mês. Passou por muitas limpezas de pó – a poluição da cidade de São Paulo não ajuda, vocês sabem – foi experimentada em vários pequenos colos, viu o Dia das Crianças terminar e uns dias para frente, uma surpresa. Em 5 de novembro, um sábado, a loja recebeu a visita de uma cliente fiel, a dona de casa Ana Paula Tortorelo Ribeiro, 31 anos, mãe de Mel, 2, e de Enzo, 5. Ela, os filhos e o marido, o auditor fiscal Kleber Luni Ribeiro, gastam muitos sábados pela região vendo novidades. Ana Paula é uma fanática por bonecas de pano. A mãe dela, Olga, lembra que havia uma bem especial quando Ana era criança que ela não largava, por mais suja e despedaçada que tivesse. “Quando resolvi jogar fora, Ana Paula chorou demais.” A paixão passou para a filha que, mesmo pequena, já tem uma minicoleção. “Gosto muito porque é um brinquedo único. Por mais que se façam várias, nunca serão iguais”, diz, curiosamente o mesmo comentário da artesã Andréia. Sim, o sentimento de Ana Paula faz coro com os especialistas. “Principalmente porque a criança pequena é acima de tudo sensorial, as bonecas feitas com elementos naturais são as ideais para elas brincarem”, diz a educadora e antropóloga, Adriana Friedman, autora de O Brincar no Cotidiano da Criança (Ed. Moderna). Mas, acima de tudo, boneca em geral é item essencial para o desenvolvimento das crianças. “É a representação do feminino, vai ser o espelho do que a criança vive, seja afetos positivos ou negativos, ou melhor: ao mesmo tempo que ela pode beijar, ninar, dar banho, ela também vai poder bater. Por meio da boneca, ela mostra o que vive, sentimentos ou até carências. Ela usa a boneca para entender a vida”, completa Adriana.
Na casa de Mel, a mais famosa das bonecas de pano está lá. Emília fica encaixada com outras em belos cestos de vime não apenas enfeitando o quarto, mas bem à altura da menina, que adora brincar com todas. Nesse dia 5, um sábado inesquecível para a nossa boneca Gabi, a pequena Mel olhou para ela no balcão abraçadinha, imitou a pose e se apaixonou. A mãe comprou sem a filha ver, mas quis fazer surpresa e esperou uns dias para dar o presente.
O grande encontro
E foi em 11/11/11, o dia cheio de superstição e expectativa no mundo, que aconteceu pela manhã o grande encontro entre a boneca e a sua nova dona, Mel. A menina não se aguentou de felicidade e agarrou a boneca o quanto pôde. Cantou para ela, ninou-a, levou-a para comer e até quis sua companhia para a soneca depois do almoço. Quando a reportagem da CRESCER chegou por lá, o flagra foi fácil: Mel a segurava pela cabeça embaixo do braço. Mesmo tímida com a nossa presença – como entender que era um dia tão especial? –, estava claro que ela havia ganhado uma nova amiga. Ah, e como faz parte batizar o presente, a partir de agora a boneca de pano que vimos nascer tem um novo nome: Nina. Boas aventuras, meninas!
 Rodrigo Schmidt
Felicidade, foi a palavra do dia na casa da pequena Mel, que ganhou sua boneca nova e não se aguentou... A família fez as fotos dos primeiros minutos da menina com o novo brinquedo e não é preciso legendas: vejam a conexão imediata. Horas depois, CRESCER foi conferir como andava a amizade e Mel não desgrudou um minuto da boneca, não se cansando de amarrar e desamarrar suas pernas e braços

FONTE: http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/0,,ERT281549-10496,00.html

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